domingo, 16 de setembro de 2007

O investigador da pintura – Joan Miró


O ouro do firmamento - 1967
Acrílico sobre tela - Fundação Joan Miró, Barcelona (Espanha)

"Trabalhar muitíssimo e viver a vida, fazer um passeio na montanha ou olhar uma bela mulher, ler um livro, ouvir um concerto: que isso tudo alimente meu espírito para que sua voz se torne mais forte. E, principalmente, queira Deus que não me falte Santa Inquietude! graças a ela os homens avançaram.
Joan Miró

No panorama da arte do século XX, Joan Miró (1893 – 1983) é um personagem de biografia singular. Entre tantos artistas de rotina boêmia, Miró se destaca pela simplicidade de seu caráter catalão. Ordem, respeito, equilíbrio, tenaciade e auto-exímio são traços que marcaram um pintor de vida discreta, mas de força interior extraordinária. Espírito, vibração, tensão são conceitos presentes com frequência no vocabulário de Miró e que demostraram seu constante esforço para alcançar a essência da pintura.

A Academia Galí
A passagem de Miró pela academia Galí - de Francesc d´Assís Galí - foi essencial para o desenvolvimento de sua obra. Ali (em 1912), o futuro pintor encontrou um ambiente para cultivar a sensibilidade como fonte de experiência artística.

Galí logo percebeu que seu novo aluno possuía grande dom para a cor, mas que seu domínio das formas deixava a desejar. Para solucionar essa deficiência, o mestre obrigou Miró a vendar seus olhos e tocar objetos para depois reproduzir em papel. O original método de desenho “pelo tato” deixou uma profunda marca em Miró. Depertou sua facinação pelas irregularidades das superfícies, característica que se tornou evidente em suas obras de nus e retratos.
Após esta primeira fase, Joan Miró apresentou em seus trabalhos uma mistura de influências que vão do expressionismo ao fauvismo, passando pelo cubismo.


A fase de realismo detalhista


Miró em seu ateliê em Barcelona, em 1954. A quantidade de telas mostra que o sonho de um grande estúdio se devia a uma necessidade real.

Numa viagem a Paris, em 1919, conheceu Picasso, entrou em contato com o movimento dadaísta e depois com o surrealismo. Seu estilo evoluiu a partir de estudos realizados sobre o irracional e o fantástico, até recriar um mundo onírico pessoal no qual fluem imagens distorcidas da realidade, cheias de formas orgânicas e construções geométricas. As primeiras obras desse período apresentam um ambiente campestre, a que se seguem outras obras orientadas por uma abstração lírica, cuja composição se organiza com uma variação limitada de cores brilhantes (azul, vermelho, amarelo, verde, preto) sobre fundos planos, com diferentes signos gráficos e deformações fantásticas livres de qualquer compromisso figurativo. Este é o caso do Carnaval do Arlequim (1924-1925) ou de Interior Holandês (1928).


Carnaval do Arlequim

A partir da década de 1930, passa a interessar-se pela colagem, enquanto os grafismos tendem a reduzir-se a pontos, linhas e manchas coloridas.


obra da série Constelações

Durante a guerra civil de 1936, concebeu algumas obras que refletem o conflito: O Ceifeiro, Cabeça de Mulher, enquanto continuava a série sobre as Constelações que concluiu nos primeiros anos da década de 1940, foram um forma de anunciar sua linguagem pictórica original e pessoal e que acabaram por abrir as portas à democratização de sua pintura e ao seu reconhecimento internacional.




Em 1956, Miró mudou-se para Son Abrines, em Palma de Maiorca. Ali dispôs do grande ateliê que sempre sonhara. O conjunto arbiga atualmente a sede da Fundação Joan e Pilar Miró.

A partir de 1944, passou a interessar-se pela escultura: realizou diversos murais para o edifício da Unesco em Paris (1958) e para a Universidade de Harvard (1960) - encomenda de Walter Gropius, fundador da Bauhaus. Por causa do grande ritmo de trabalho, cultivou simultaneamente escultura de pequenas dimensões, retornando a pintura em 1959. Esta época foi caracterizada por uma progressiva estilização que atingiu seu máximo nos três painéis Azul I, II e III.

No alto, o Mural da lua (1958) na sede da Unesco, em Paris: acima, o mural do aeroporto de Barcelona (1970).

Nas décadas de 1960 e 1970, sua obra já era mundialmente conhecida. Ao mesmo tempo, a presença da cor negra começava a dominar sua pintura.


Camponês catalão ao luar - 1968
Fundação Joan Miró, Barcelona


Empenhou-se cada vez mais em participar de movimentos de defesa da cultura catalã diante do centralismo do governo ditatorial. Entre os projetos, destacou-se a criação da fundação que atualmente leva seu nome - Fundació Miró , Barcelona (foto abaixo).



Em 1975, após o fim da ditadura militar, o povo espanhol finalmente pôde homegear seu trabalho. Em 1978 uma grande retrospectiva foi realizada em Madri, e em 1980, o rei Juan Carlos I concedeu-lhe a medalha de ouro das Belas-Artes do Estado Espanhol.
Faleceu em 1983 em Palma de Maiorca, em meio a comemoração mundial de seu aniversário de 90 anos.

" Miró representava a liberdade. Em certo sentido, era absolutamente perfeito. Não era capaz de pôr um ponto sem fazê-lo no lugar exato: era um pintor de verdade, a tal ponto que bastava deixar cair três manchas de cor cobre a tela para fazer um quadro."
Alberto Giacometti
q
fonte: Coleção Grandes Mestres da Pintura - Folha de SP - vol.11
imagens: Coleção Grandes Mestres e sites por aí a fora...

5 comentários:

Erika Tani disse...

Eu não sei se ficou muito longo, mas curti demais fazer esse post.

Rodrigo Disperati disse...

Meu Deus, como eu gosto desse cara.

Me lembro da expo dele que vi no MAM em 1996. Dia desses vou scannear a foto que fiz de uma obra dele que está no MoMA de NY.

Clap, clap, clap! Palmas pra Erikinha!

Luciana Costa Valle disse...

Não, Erikinha, não ficou longo. Ficou generoso(a), como a alma deste artista.

Erika Tani disse...

E ainda vamos conhecer todos juntos a Fundació Miró, ao vivo e à cores!

Tati disse...

A arte so faz sentido quando ela provoca sentimentos. E Miró faz isso muito bem. Me provoca os sentidos, me faz sorrir com delicadeza... eu já me atrevi a escrever um post pra ele, mas foi realmente atrevimento. Aqui vc o fez muito bem...